Recuo em Goiás expõe fragilidade de Flávio Bolsonaro no comando do bolsonarismo
As brigas públicas no PL — inclusive dentro da própria família Bolsonaro — arranham a imagem de filho zero um do ex-presidente e expõem sua fragilidade política. Ao tentar se vender como uma versão mais moderada da direita, o senador vê sua autoridade ser corroída por disputas internas que o desautorizam nos estados, como em Goiás
O recuo do senador Flávio Bolsonaro (PL) no acordo previamente firmado com o governador Ronaldo Caiado (PSD) expõe, de forma cristalina, as fissuras internas que atravessam o PL nacional e, sobretudo, a fragilidade política do pré-candidato presidencial dentro do próprio campo bolsonarista.
O entendimento costurado entre Caiado e Flávio previa o apoio do PL goiano à reeleição de Daniel Vilela (MDB) e, em contrapartida, a garantia de sustentação da base governista ao projeto senatorial de Gustavo Gayer (PL) — movimento que atendia ao desejo de Jair Bolsonaro de preservar espaços estratégicos nos estados. Ao pedir desculpas a Caiado, em reunião na última quarta-feira (25), e atribuir ao presidente nacional do partido, Valdemar da Costa Neto, a responsabilidade pelo descumprimento do compromisso, Flávio admitiu, ainda que indiretamente, ter sido atropelado pelo comando da legenda.
A declaração de que foi “passado por cima” pelo cacique do PL não apenas revela descoordenação interna, mas desnuda a ausência de musculatura política para sustentar acordos regionais diante das pressões do diretório nacional. Pela terceira vez consecutiva, o PL rejeita uma aliança estratégica com a base governista goiana.
A submissão à decisão do senador Wilder Morais de lançar candidatura própria ao governo evidencia que o projeto nacional do PL cede aos interesses locais — e não o contrário. Em um partido que abriga múltiplas correntes, o discurso de unidade em torno do bolsonarismo esbarra na realidade pragmática de lideranças que priorizam seus próprios cálculos eleitorais.
Controle do espólio político de Bolsonaro
O episódio também reforça as desconfianças que rondam o nome de Flávio Bolsonaro entre setores do bolsonarismo e do centrão. Desde que comunicou a decisão do pai — hoje preso na Papudinha —, o senador enfrenta críticas veladas e dissensos explícitos. Há quem preferisse Tarcísio de Freitas (Republicanos) como alternativa presidencial, hipótese frustrada pela opção do governador paulista de disputar a reeleição.
Ao fim, a decisão do PL em Goiás simboliza mais do que um impasse regional: traduz a disputa pelo controle do espólio político de Bolsonaro e sinaliza que parte dos eleitos sob sua sombra tenta operar com autonomia própria — ainda que isso custe, novamente, a derrota do bolsonarismo no tabuleiro nacional.
