O machismo bate à porta do PT goiano
Quando mulheres relatam tentativas de silenciamento justamente dentro das organizações que prometem combater essas práticas, fica evidente que o país ainda está longe de consolidar conquistas obtidas após décadas de mobilização
A denúncia feita pela deputada federal e presidente do PT em Goiás, Adriana Accorsi (foto), lança luz sobre uma contradição difícil de ignorar. Ao afirmar que sofre pressão de um grupo de homens do próprio partido para desistir da disputa pela reeleição, a parlamentar não apenas expõe uma disputa interna de poder, mas também coloca em xeque um discurso historicamente associado à própria legenda.
“Tem um grupo de homens dentro do partido, brancos, héteros, que realmente não aceitaram a minha liderança e tentam me coibir de ser candidata à reeleição, que é o que eu quero”, afirmou. Adriana disse ainda que prefere não citar nomes por receio de ser processada. Em nota, reforçou que esse grupo “se incomoda com a liderança feminina no partido e com o protagonismo de uma mulher parlamentar”.
O episódio é grave. Não apenas porque revelaria a existência de violência política de gênero, machismo e misoginia dentro de um partido que faz da defesa dos direitos das mulheres uma de suas principais bandeiras, mas porque desmonta a narrativa de que esse tipo de comportamento seria exclusividade da extrema direita.
O Brasil acompanha, há semanas, o desgaste público entre Michelle Bolsonaro e seu enteado, Flávio Bolsonaro, em meio a acusações de desrespeito e tentativas de esvaziamento político da ex-primeira-dama. Agora, uma denúncia semelhante surge em um campo ideológico que sempre reivindicou superioridade moral justamente nesse debate.
Espera-se que um partido identificado com pautas progressistas seja o primeiro a oferecer ambiente seguro para a participação e o protagonismo feminino.
